O Abutre em Voo Livre: Atingindo Diretamente a Essência e Dissolvendo a Ilusão
Um texto de Instruções Cruciais de Dzogchen Atiyoga
por Ajanatha
Introdução
A natureza real de cada ser é, pela sua própria natureza, perfeição total, felicidade plena, amor e sabedoria. Essa é também a natureza real da realidade. Embora possa parecer que existem inúmeros problemas — seja dor emocional, lutas internas ou dificuldades externas — na realidade, no cerne mais profundo, não se encontra nem o mais leve vestígio de sofrimento ou ignorância.
Contudo, como isto não é conhecido, por estar oculto atrás de um véu de falta de consciência, surge o descontentamento. Um profundo mal-estar manifesta-se devido à sensação de que "algo falta". Na verdade, a condição real do Ser é espaço luminoso fundamental e total.
Para soltar as amarras deste cativeiro, pode-se olhar diretamente para dentro e observar: a pessoa que se pensa ser, o que é? Onde está? De que é feita? Pode ser agarrada e identificada? O que é exatamente aquilo que está "ali" a olhar? Este olhar direto aponta o caminho e define o real propósito da natureza espiritual.
A Natureza da Sabedoria e do Amor
Uma vez descoberta, vê-se diretamente que no espaço da condição última do Ser não se encontram o "eu" ou o "outro" como entidades distintas. Existe simplesmente a indescritível inseparabilidade da totalidade completa, que por si só é grande e profunda sabedoria.
Esta sabedoria não é o conhecimento de algo como um objeto, como se conheceria uma informação ou o nome de um objeto. Em vez disso, é sabedoria porque há inseparabilidade. Esta inseparabilidade em si é a sabedoria que se conhece a si mesma como a totalidade e toda a diversidade que nela aparece. É sabedoria porque é cognição pura que não necessita de objeto de conhecimento e, no entanto, tudo é diretamente conhecido.
Esta condição real de ser é também Grande Amor. Não é o sentimento de amor por algo ou por outrem. O Grande Amor é a natureza luminosa da própria condição última. Porque a condição última, ou A Base da Realidade, é uma grande não-dualidade na qual não há eu nem outro, esta ausência de separação é o Grande Amor.
É também Felicidade Plena porque nada falta e nada há a procurar. Quando se sente que nada falta, não há necessidade de procurar algo para mudar ou alcançar; isso é felicidade plena. É paz total porque não há apego a qualquer pensamento ou emoção perturbadora, e não há pensamento ou emoção que seja um objeto a ser experienciado. Se não houver apego ou fixação a qualquer estado emocional como sendo real, nem nada a construir na mente conceptual, então habita-se a paz.
Esta condição última é atemporal e não-nascida. Por não ser uma entidade ou uma "coisa", nunca foi criada. Estando além do tempo, reside no agora eterno. É indestrutível e impossível de manchar porque não é um objeto; tal como o espaço, não pode ser destruído nem sujo de forma alguma. É união pura — uma união consigo mesma, em si mesma, a partir de si mesma, e toda a diversidade que surge na sua própria espacialidade inconcebível.
Esta não-dualidade não significa uma "unidade" onde tudo é "o mesmo". Significa que na totalidade do absoluto, não há Um nem Dois. Nem Unidade nem "dualidade". Nada falta, pois é a totalidade.
Tal como o oceano e as suas ondas: muitas ondas surgem no oceano, mas estas ondas nunca estão separadas dele, nem são nada além do próprio oceano. Da mesma forma, a cognição pura primordial, devido a um fator de confusão latente, surge como seres vivos que aparecem como indivíduos. Inconscientes da sua condição, perdem-se nas muitas ondas que surgem, sem ver que cada um é apenas uma onda também e, como tal, é o próprio oceano.
Como diz um Sutra:
"A condição última do Ser é paz e pacificação porque está livre de desejo. Não se torna um objeto porque está livre de ideias. É inexprimível e transcende todos os movimentos da mente. É omnipresente porque é infinita como o espaço; é sem cor, marca ou forma. Permeia igualmente todas as coisas. É sem estabelecimento ou rejeição, sem nascimento ou destruição."
E como Longchenpa escreveu:
"Tudo o que aparece e tudo o que surge, todas as coisas que proliferam e residem como expressões dinâmicas da cognição pura... tudo é de um espaço básico, como ondas na água. (...) Não se desvie do âmbito da cognição pura; isto é análogo às ondas no oceano que surgem, permanecem e cessam, mas não estão separadas da água. Nada se desvia da extensão espontaneamente presente dos três kayas."
A Ilusão do "Eu" e a Busca Incessante
Como resultado do não reconhecimento da condição absoluta do Ser, os seres vivos estão constantemente à procura, sentindo sempre que algo falta. Há uma necessidade constante de fazer algo, de alcançar ou obter algo, de ter sensações específicas.
Por outro lado, tudo o que não se encaixa nas ideias do que se pensa ser necessário é temido e rejeitado. Desta forma, há uma busca contínua por paz, felicidade e realização, sempre focada em obter algo diferente do que está aqui agora, focada sobretudo em experiências e coisas transitórias.
Vivendo desta forma, o ser é sacudido por emoções perturbadoras como a raiva, o medo, o ciúme, a inveja, a esperança e o desejo, como um pequeno barco à deriva numa tempestade. Devido a esta situação, os seres vivos tentam capturar a felicidade e preencher esse sentimento de falta através de inúmeros meios.
Todos desejam ser felizes e evitar o sofrimento. Este é o impulso mais básico. Assim, procura-se a felicidade em inúmeras coisas externas e situações. Por vezes, julga-se que a felicidade pode ser encontrada através da destruição, mas esse tipo de satisfação é efémero e cria apenas mais problemas, deixando a sensação de que é preciso tentar de novo. E assim, esta inquietude continua.
Qual é a base de toda esta busca incessante e das perturbações que dela resultam?
A base é o "Eu".
Não há "Eu" na condição última. O "Eu" que aparece é uma miragem que surge por não se ver a totalidade do espaço primordial. É um momento de confusão onde a clareza natural da cognição pura se torna um objeto. A partir daí, as aparências tornam-se "coisas" e a cognição pura primordial torna-se "Eu".
Deste "Eu", logo se segue: eu quero, eu preciso, eu não quero, eu gosto, eu não gosto.
Uma vez que esta base do "Eu" se desenvolve, corre-se de um lado para o outro, focando na variedade incontável de experiências como se fossem permanentes e reais. Não se percebe que a vida e tudo o que se acumula são como construir um castelo de areia na praia durante a maré baixa. Quando a maré sobe e limpa a praia, surge a surpresa, a raiva, a depressão e a frustração.
Em suma, vive-se sob a influência do medo: o medo de que a maré limpe a praia — o que inevitavelmente acontece.
Deste "Eu" também se desenvolvem fantasias e inúmeros julgamentos. Estas projeções levam a que se veja o mundo com base em conceitos, e não no que realmente está presente. Como resultado, há sempre uma tensão entre as ideias fabricadas e a realidade tal como ela é, momento a momento. Não é surpresa que se esteja continuamente em conflito — internamente e com o mundo — pois parece haver sempre algo "errado" que precisa de ser corrigido ou melhorado.
A felicidade e a unidade que se procura em coisas externas é a unidade que já é a condição real: a totalidade do estado absoluto do Ser, a Grande Perfeição natural (Dzogchen).
A condição atual é semelhante a um estado de sonho febril. Regressar à condição real é como acordar — acordar da ilusão de ser uma "pessoa" real vivendo num mundo separado "lá fora" e despertar para a totalidade da natureza real do Ser.
Como diz um Sutra:
"A mente desperta não deve ser realizada pelo corpo nem pela mente conceptual; está livre de todas as ideias sobre objetos. A mente desperta é a eliminação de todas as opiniões e visões. Está livre de toda a discriminação. O despertar é chegar à liberdade de todas as tendências habituais. É sem dualidade, além da mente e das coisas. É a grande igualdade como o espaço infinito. A mente desperta é não-construída porque nem nasce nem é destruída. É o reino supremo e a realização da realidade."
O Caminho: Atingindo Diretamente a Essência
Como se pode então descobrir esta condição real?
Primeiro, é necessário um desejo genuíno de liberdade — uma motivação intensa para acordar. Pode-se chamar a isto devoção à verdade. É necessária a abertura para questionar tudo, a fim de descobrir a diferença entre o que é falso e o que é verdadeiro. Deve-se reconhecer que todos os conceitos são apenas reflexos pálidos da realidade.
Para embarcar nesta jornada, é preciso compreender que tudo no mundo relativo é temporário, suavizando o apego às coisas.
Todos os caminhos que levam à liberdade enquadram-se em dois tipos: um caminho que atinge diretamente a essência, ou um caminho que dissolve a ilusão. Aqui, ambos são combinados.
Atingindo Diretamente a Essência
Atingir diretamente a essência significa entrar diretamente no absoluto ao entrar, de uma só vez, no próprio cerne da cognição pura, que já é a condição autêntica da mente.
Idealmente, isto envolve receber as instruções e o "apontar" (pointing out) de um guia qualificado, para reconhecer aquilo que é imutável na mente: a cognição pura-conhecimento não-nascida, atemporal e sem objeto. Uma vez reconhecido este coração do Ser, residir nisso é o que se entende por "meditação contemplativa".
Se esta entrada direta não for possível de imediato, pode-se praticar a meditação como descrito a seguir para se aproximar da descoberta desta cognição pura presente.
O método consiste em três aspetos: posicionar o corpo, posicionar a mente e abandonar a mente.
Posicionar o Corpo: Deve-se aprender a sentar de uma forma que ajude a clareza, permanecendo relaxado e evitando a sonolência.
Posicionar a Mente: A mente é colocada onde tudo é visto, ouvido e sentido, mas nenhum objeto é retido. A mente é colocada em lugar nenhum. Isto não é uma retirada para dentro nem um bloqueio dos sentidos. Tudo é percebido, mas a mente não se fixa em nada. É uma mente brilhante, silenciosa, aberta e consciente. Nem fixada no exterior, nem fixada no interior. Quem está consciente? É isso. Uma vez que a mente encontra o seu lugar, é abandonada.
Abandonar a Mente: Significa parar qualquer controlo ou manipulação da mente e permitir que ela seja como é. Permitir que relaxe numa vasta abertura onde tudo pode vir e ir, como nuvens no céu. Os pensamentos podem surgir e desaparecer por si mesmos.
Se o meditador se agarrar a um pensamento e o seguir, a abertura da meditação perde-se. Da mesma forma, se tentar impedir os pensamentos, a mente fica contraída. Abandonar a mente é um grande relaxamento do "não-fazer", sem perder a clareza da cognição pura aberta.
Como disse Tilopa:
"Não recordes o passado. Não imagines o futuro. Não penses sobre o agora. Não examines o que acontece. Não controles o que acontece. Descansa – agora relaxa e descansa."
Após abandonar a mente e descansar, ver-se-á claramente se ocorrer distração. A distração surge quando se regressa ao falatório mental ou quando a mente fica enevoada. Se isto ocorrer, deve-se voltar ao início: posicionar a mente e abandoná-la novamente.
Ao atingir diretamente a essência através da meditação diária, a cognição pura presente torna-se mais estável e, com o tempo, pode ser integrada em todas as atividades da vida.
Dissolvendo a Ilusão: Aplicação na Vida Quotidiana
Dizer simplesmente para "estar presente em tudo" não é fácil. Por isso, utiliza-se o caminho que dissolve a ilusão através de dois princípios: a Entrega e o Agir em Conformidade com a Natureza Última.
1. Entrega
A entrega compreende três princípios: Contentamento, Desapego das expectativas e Agir de acordo com a situação atual.
Contentamento: O mundo é um fluxo em constante mudança. O que aconteceu já está presente; o que se está a manifestar já está a acontecer. Tentar controlar o fluxo apenas cria mais tensão. Rejeitar ou ficar zangado com o que se manifesta agora é a causa de mais problemas. Cultivar o contentamento perante os altos e baixos da vida é a melhor abordagem. Uma mente contente é um espaço aberto de paz que conduz à sabedoria.
Desapego das Expectativas: Nem sempre se sabe como as coisas vão correr. Como tudo é impermanente e ilusório, deve-se manter uma mente aberta. Isto traz grande paz. Age-se no mundo segundo as necessidades, mas sem envolvimento excessivo nos resultados.
Agir de acordo com a Situação Atual: Esforça-se por agir com compaixão e amor. As ações, palavras e pensamentos têm consequências. Mesmo que não existam regras absolutas, sabe-se que ações motivadas pelas emoções preturbadoras, como por exemplo raiva ou pelo ódio não trazem paz. No fundo, é a motivação que conta. O que está alinhado com as qualidades naturais da natureza da realidade conduz ao despertar. O que não está cria falta de harmonia a todos os niveis.
2. Agir em Conformidade com o Absoluto
Agir em conformidade com a natureza última significa agir com a compreensão de que tudo é fundamentalmente puro, além do bem ou do mal, e de natureza impermanente. A falta de consciência desta condição é a raiz de todos os problemas.
Na totalidade do espaço último, não há "eu" nem "outro" — esta condição não se encontra noutro local senão agora mesmo, onde se está. Não é um lugar ou um tempo noutro lugar. O estado último da realidade é aqui e agora, e inclui tudo totalmente. A vida e a situação pessoal de cada um são inseparáveis da pureza e da integridade da condição última.
Desta forma, não há nada a rejeitar e nada a procurar. Não existe situação de vida que não faça já parte da totalidade no agora eterno. É apenas a mente conceptual que produz a ilusão de uma "pessoa" e de um "mundo exterior". Por isso, não se foge das atividades da vida; não se deve pensar que é preciso ser uma pessoa diferente para alcançar a realização. O "eu" que se quer melhorar é o próprio foco da confusão; a natureza real já é perfeita, embora ainda não vista.
Esta visão de algo como impuro, bom ou mau é apenas um conceito da mente. Como exemplo, um espelho nunca é puro nem impuro. Se for coberto de pó, por baixo da sujidade o espelho continua límpido. Se fosse verdadeiramente sujo, nunca poderia ser limpo. O estado real do espelho está além do puro e do impuro. O espelho reflete tanto o belo como o terrível, mas permanece inalterado pelo reflexo. Da mesma forma, a mente pode experienciar pensamentos positivos ou negativos sem nunca se tornar permanentemente uma "mente positiva" ou uma "mente negativa". A mente e todos os fenómenos são naturalmente imaculáveis e impossíveis de fixar.
Como diz o Lankavatara:
"Como todas as coisas são irreais, não há nem impureza nem pureza; as coisas não são como são vistas, nem são de outra forma."
Na prática, isto significa que não há nada a que se deva agarrar. Visto que o bom e o mau, o "eu" e o "outro" existem apenas na mente, pratica-se a generosidade relaxando o apego. Pratica-se a paciência relaxando a rejeição do que se manifesta agora. Agir com cuidado e respeito por todos nasce da compreensão da inseparabilidade absoluta.
Visto que a condição última é de grande paz, cultiva-se uma mente que reside em presença clara. Compreende-se que, fundamentalmente, não há nada a melhorar ou a corrigir, nada a desenvolver ou a eliminar. O praticante age sem ser um agente, dá sem dar e pratica sem praticar, livre de apego. Como disse Rinzai:
"Segue em frente direta e retamente, e saberás sem perguntar como cada dia deve ser vivido."
Conclusão
Praticando desta forma, o ser torna-se como um abutre em voo livre. Depois de largar a carcaça das projeções mentais, voa-se livremente no céu aberto, sem deixar rasto.
Como disse Longchenpa, a cognição pura é "como um pássaro em voo, não deixa rasto". O voo do ser não nasce nem morre. Só quando um pássaro pousa numa árvore é que se diz que ele "chegou". A mente pessoal comum, o "eu", é apenas essa árvore.
Não pouses em árvores. Voa!
O resumo de todo este texto é apenas isto: o ser não é um "quem". Fazer desta descoberta o centro da vida é o caminho para a liberdade.
Ao mover-se pelo mundo, deve-se lembrar: ser bondoso. Ser gentil. Ser forte. Ser como um grande abutre em voo livre.
com amor,
Ajanatha
